EXPOSIÇÃO

sábado, 25 de março de 2006


"UM OLHAR SOBRE MOÇAMBIQUE"
Moçambique, Agosto de 2006. Terras no Índico que falam português. Se calhar, a nossa imaginação pensará em praias maravilhosas onde mergulhar, florestas luxuriantes onde descobrir a natureza ainda virgem, savanas imensas onde procurar aventuras...
Não duvido que alguns possam encontrar algo de isto em Moçambique. Como olhamos não só com os olhos, mas também com o coração, esta é uma olhadela diferente. Pelo menos, não é a olhadela que pudemos encontrar numa agência de viagens. Tentamos, lembrando-nos do passado e olhando para o futuro, compreender as vidas de tantos que, embora achemos que nada têm a ver connosco, formam parte dum continente esquecido, abandonado, ultrajado... em cuja situação actual, teríamos de nos sentir envolvidos. Por humanidade. Mas sobretudo, por justiça.

OS RESTOS DA GUERRA...

Foram mais de quatrocentos anos de presença portuguesa. O roteiro das Índias quis que Moçambique fosse um local importante onde os navios se forneciam. Depois viriam o comércio, a luta com os muçulmanos, a procura de escravos para o Brasil, os prazos, a mão-de-obra forçada para a África do Sul, as culturas de exportação... e uma guerra colonial provocada pela procura da própria identidade.
A revolução dos cravos trouxe a independência. Estamos em 1975. Moçambique vira para o marxismo com a FRELIMO. Os portugueses que ainda moram lá não gostam muito da situação. Com eles saem os quadros formados que até agora têm organizado a província de ultramar. Os “apartheid” sul-africano e rodesiano também não gostam deste regime. A criação da RENAMO não demora muito...
São dezasseis anos de guerra, campos minados, culturas arrasadas, milhares de mortos e deslocados... morte e sofrimento após de morte e sofrimento.

Ainda hoje, catorze anos depois dos acordos de Roma, ficam, estragados na praia, dezenas de navios a nos relembrar um passado que não tinha de ter acontecido...

A HERANÇA (VISÍVEL) PORTUGUESA

África não seria hoje o que é se não fosse pelo Tratado de Berlim que, em 1885, a partilhou entre os países europeus. Mas não vamos falar na colonização e nas consequências que trouxe para os moradores destas terras e os seus descendentes. Vamos falar noutros assuntos. Porque se abrirmos os olhos e as orelhas, haverá duas coisas que logo descobriremos: a arquitectura e a língua portuguesas ainda hoje presentes.
Porque se não, como é possível que, nesta altura do século XXI, o centro da Beira, segunda cidade moçambicana, ainda seja conhecido como a Baixa, e a arquitectura colonial e de azulejos se misture em prédios que nos deslocam à Lisboa salazarista? Ainda mais, entramos na Pastelaria Suiça e pedimos uns pastéis de nata. É como estar em Lisboa, mas na Lisboa de 1970. O tempo português parou na Baixa beirense. Só os estragos nos prédios e os carros novos nos recordam a data presente.

Se não fosse pela cor da pele, saberias onde tirámos estas fotografias?
Chimoio, capital de Manica. Cidade no interior, na estrada que vai para Zimbabwe.

A HERANÇA NÃO VISÍVEL

Agora sim, vamos falar em termos das consequências da história. E vamos fazê-lo duma maneira muito simples, com o apoio das Nações Unidas: comparando o Índice do Desenvolvimento Humano de Espanha e de Moçambique. Um caminho para nos acercar a realidade presente de Moçambique.
O IDH mostra o grau de desenvolvimento dum país, considerando não só indicadores económicos, como o rendimento per cápita, mas também outros. São utilizados três tipos, no que diz respeito a Rendimentos, Educação e Saúde. Na classificação mundial, Espanha ocupa o lugar 21. Moçambique o 168 (há dados de 177 países). Vamos ver alguns destes indicadores:
Espanha-Moçambique

Educação
Percentual de analfabetos 2,3% 53,5%
Taxa bruta de frequência à escola 94% 43%

Rendimentos
Per cápita: 20.233 € 1.007 €
Desemprego: 10% 80%
Consumo de energia eléctrica: 6.154 kwh 378 kwh
Nº carros/ 1.000 pessoas: 472 4,9
Nº telefones/ 1.000 pessoas: 429 4
Nº telemóveis/1.000 pessoas: 916 23

Saúde
Esperança de vida ao nascer 79,5 anos 45,9 anos
Nº médicos/100.000 pessoas 320 2
Nº camas hospital/1.000 pessoas 3,9 0,9
Doentes de SIDA: 120.000 mais de dois milhões
Rede de canalização, esgotos Quase toda Nas avenidas principais
a população

As seguintes fotografias mostram o que estamos a dizer. Foram tiradas na Munhava, o maior e mais popular bairro da cidade da Beira. A população, deslocada dos campos a fugir da guerra, assenta-se na zona e constrói as suas próprias casas: argamassa de areia e pedras entre paus de bambu. Telhado de capim ou zinco. Evidentemente, o alcatrão não existe nem sequer na Avenida Principal, embora seja a porta de entrada e saída de produtos para o vizinho Zimbabwe. Carros também não há muitos, embora sejam cinco da tarde. Vendedores e vendedeiras espalham-se nas ruas a vender quaisquer coisas. A cidade toda é um mercado ambulante. Energia eléctrica há só em algumas casas. O combustível, tão comum no país, é a madeira. Mas, nas lojas do distrito comercial de Maquinino podes comprar um bom telemóvel (evidentemente, se tiveres os meticais necessários)

A MULHER

Uma mulher moçambicana sempre tem alguma coisa para fazer. Primeiramente, porque na cultura de subsistência africana, é a mulher e não o homem quem cultiva o campo. De manhãzinha, podes vê-las, de enxada na cabeça e criança às costas, caminho da “machamba”, onde semeia e prepara a terra. À tarde, já na cidade, dedica-se às suas labutas domésticas (pilar o milho, cozinhar, lavar as crianças...). Se além disso não tiver marido, ou as secas estragaram as colheitas, ou a machamba não chega para todos comerem, será também vendedeira. Acham por tanto, esquisito que a metade das mulheres na Beira não saibam falar português?
Então, que é o que os homens fazem? Nem imaginam?

AS CRIANÇAS

As crianças são sempre crianças, estejam onde estiverem. Mas é verdade que umas têm mais sucesso do que outras. A vida é difícil para os miúdos moçambicanos. Nem todos têm cobertas as necessidades mais básicas. Alimentação, educação e saúde, por exemplo. O trabalho infantil é uma realidade muito comum. O drama da SIDA tem vindo acrescentar as dificuldades. Não só estão a morrer homens e mulheres novos, das faixas etárias em idades de trabalhar, mas também os seus conhecimentos não estão sendo transmitidos às novas gerações, e estas estão a ficar sozinhas: a tradicional família africana já não pode acolher todos os membros. Após os pais morrerem, avós e tios tomam conta das crianças, mas a capacidade é limitada, e as despesas nem sempre chegam. O resultado: irmãos que vivem sozinhos, acrescentando o número de meninos de rua. Mas além disso, é digno de elogio a capacidade de superação destes miúdos. Junto a uma incrível criatividade, o sorriso jamais se oculta das suas faces.

A VIDA DIARIA

Porque, apesar das dificuldades, a vida nasce e continua. A fome, as doenças, o desemprego, as secas que fazem perder as colheitas, os pais que já morreram... a vida duríssima, em suma, não é motivo para que o moçambicano se abata. A necessidade faz o homem criativo. Também faz que viva o presente com profundidade. E quando for o tempo de chorar, chorará, e quando for o tempo de rir, rirá. E como ninguém, exprimirá com o canto e a dança os sentimentos e desejos que nascem do seu coração.

MOÇAMBIQUE RURAL

Se as dificuldades são grandes no Moçambique urbano, que não acontecerá no Moçambique das aldeias? Onde o tempo parou, ninguém está apressado e a vida corre mais devagar, ainda. Mas onde também o desenvolvimento não chega. E as secas estragam colheitas, a fome é um quotidiano, a escola fica longe de mais (o português é falado quase por ninguém), os carros e as estradas não existem e em vez de doutores temos feiticeiros. Mas também, onde, apesar de tudo, a alegria de viver permanece, e se partilha com o estrangeiro o pouco que se tem.

A ALEGRIA DE VIVER

É muito o que a África nos ensina. Quem ache que não tem nada que aprender, engana-se. São os seus valores ancestrais, de solidariedade e fraternidade, o que primeiramente nos dá. De graça. Mas é muito mais. Porque a coragem, a simplicidade, a capacidade de luta, de sobrepor à adversidade a alegria de viver... mostram quais são as coisas verdadeiramente importantes na vida. A Europa do século XXI, orgulhosa da sua técnica, do seu progresso, dos seus níveis de consumo e consumismo... tem muito que aprender de aqueles povos que, esquecidos e ultrajados, conservam a dignidade e procuram um futuro melhor.

Esta exposição vai dedicada para todas as crianças do Lar Siloé, na paróquia de São José, na Munhava, órfãos que são capazes de olhar a vida com alegria. E para o padre António Aguilar que, em meio do povo moçambicano, nos mostra qual é o verdadeiro caminho da felicidade.

Málaga, Março de 2006
Se quiseres saber mais sobre a situação africana: CADERNOS "CRISTIANISME E JUSTÍCIA":
(versões em espanhol, catalão e inglês)
nº108: Alexis Bueno Guinamard: "OLHAR PARA A ÁFRICA, REDESCOBRIR A EUROPA" http://www.fespinal.com/espinal/castellano/visua/es108.htm#1
Nº137: Óscar Mateos Martín: "ÁFRICA, O CONTINENTE MALTRATADO"

0 comentarios:

Related Posts with Thumbnails